terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Às vítimas e aos que sentem pena

Comportamentos que sempre me incomodaram:
- aquele ou aquela que está sempre sentindo pena de si mesmo e deseja que os outros façam o mesmo.
- E aquele que sente pena de todo mundo.

Ah, ele tá comendo sozinho, coitado.
Não conseguiu terminar a faculdade, coitado.

Enfim, você também deve conhecer alguns.

Amiga brasileira aqui de Estocolmo escreveu um ótimo texto sobre o tema que desejo compartilhar.

Beijos.




http://cintiaanira.blogspot.com/2012/02/oh-coitado-oh-coitada.html

Oh coitado! Oh coitada!

Eu fui criada em uma sociedade confusa. Primeiro porque as pessoas além de não ajudarem alguém com problemas, elas logo resumem o caos a uma expressão: "Oh! Coitado!" E pronto. Como sabemos existem muitos tipos de 'coitados'. Certa vez li um livro (que não lembro o nome), onde uma senhora encontrava-se enferma e sob cuidados da família. O médico foi visitá-la e disse: "Que bom, minha senhora! Nós retiraremos seu medicamento porque seu organismo está reagindo muito bem e logo sua vida voltará ao normal!" Surpresa, ela respondeu: "Como assim? Eu não estou boa ainda... cof! cof! cof! Preciso de remédios e dos cuidados dos meus familiares. Assim eles vão me abandonar." Como sabemos existem muitas pessoas no mundo como essa senhora. Pessoas que estão aptas a seguir a vida adiante, mas não querem. Parecem aleijadas de iniciativa. Umas querem os cuidados, o zelo do outro, e outras parecem que gostam de ouvir "Oh! Coitado!". Oposta a esse sentimento de "pena", eu sempre me incomodo. Considero desconfortável conviver com dois tipos de pessoas:
1- A vitima: aquela que só reclama, não muda (e não quer mudar) de vida e não faz nada por si mesmo (quem dirá por outros). O tipo que nutre-se do sentimento de pena que os outros lhe compelem como se esse fosse uma vitamina, um fotificante. Aquela que precisa de um "Oh coitado!" por dia para continuar vivendo.
2- O distribuidor: aquele que convive com a vitima, "digna de pena" e há anos, diz "oh coitado!" sempre que necessário. De FATO, nunca moveu-se para uma verdadeira ajuda, aquela que seria eficaz na situação.

Quando eu tive depressão pós-parto (em 2010), liguei para uma grande amiga. Quando contei como me sentia, ela começou a chorar e não conseguiu me ajudar. Meses depois, estive no Brasil em 2011 e nos encontramos. Ela, que deixou a profissão pelos filhos, resolvera voltar a estudar outra área e me contou o quanto estava empolgada com o futuro. Então ela se desculpou por aquele fatídico dia. Quando eu a telefonei em 2010, seu carro havia sido roubado e o marido perdido o emprego. Eles estavam desesperados. Recentemente recebi um email dela (já em 2012). Agora, ela está estagiando em uma renomada empresa, o marido encontrou outro trabalho e o filho mais velho fez um teste e ganhou uma bolsa de estudos em um bom colégio. Analisando esse processo, eu percebo uma pessoa que não aceitou o "Oh! coitada!" e batalhou por dias melhores. Esforço, dedicação, auto-confiança e coragem, são virtudes definitivamente atrativas. E é esse tipo de exemplo que nos obriga a escolher um perfil que chega a ser 8 ou 80: ou você é coitado ou você não é!

Isso me faz lembrar um caso relativamente próximo. Uma senhora que vivia reclamando do marido: que ele que era chato, munheca, implicante e exigia as refeições na hora certa. Que agia com indiferença e não lhe via como mulher. Então, quando o encontrava, ela abria o sorriso, o chamava de meu amor e dizia que estava com saudades! Pior do que ela, eram as pessoas que sentiam pena dela. Encontramos esse tipo de perfil em cada esquina. A questão é: Deixamos uma criatura dessas entrar na nossa vida? Na nossa casa? Ela tem o direito de nos tirar uma tarde de sossego com suas lamúrias e depois presenciarmos reação tão contraditória? Como ajudá-la? Passar a mão na cabeça e dizer: "Oh coitada! Você é uma pessoa tão boooooaaaa...." e em seguida pegar a direção do salão da Creuza prá fofocar?!?

Com o tempo, esse jogo de pena dos outros se torna um vício. Fala-se que é "natural" ter pena de outra pessoa e comentar com dó seus problemas. E quando somos criados em uma sociedade cheia de "vitimas" e de "distribuidores de pena", não sabemos ao certo de onde isso surgiu. No entanto "aprendemos" a conviver com esse sentimento de vitimização aguda que floresce nas pessoas - especialmente em mulheres - embora eu já tenha encontrado muitos representantes da ala masculina incrivelmente dramáticos. Gente que só reclama, exagera que tudo de errado só acontece consigo, extrapola que seus problemas são maiores do que dos outros. Distorcem idéias, fatos, anulam memórias, inventam, contracenam suas mentiras e fantasias. No roteiro encaixam-se sempre no mesmo papel: A VÍTIMA, ou se preferir, "o coitado!". Esse termo pode ainda ficar pior quando acrescido um adjetivo: "pobre"! Já reparou que todo mundo vem se tornando "pobre coitado"?

Esse assunto entra num tema bem comentado na atualidade e que na minha época existia, mas não tinha nome: "bullying". Há alguns dias eu li um texto onde o autor comentava que se você não sofreu "bullying", é porque você o provocou. Embora não existia uma classificação no passado para esses tipos de agressões provocadas como "bullying", as consequências estão por aí e muitas pessoas da minha geração tiveram problemas em sua vida acadêmica e pessoal. Também há os que defendem a idéia de que essa coisa de "bullying" para qualquer chateação na escola anda sabotando o desenvolvimento das crianças, afinal, com tanta proteção elas não estão aprendendo como enfrentar as adversidades da vida. Em outras palavras, crescem meio "bundões". Esse é um assunto prá lá de complexo e que eu não me atrevo a abordar, mas sabemos que normalmente é uma situação para o rótulo: "Oh coitado!".

Ingratidão é e sempre será um comportamento inferior que sintetiza falta de educação. Mas o que dizer daquele que faz um mísero favor e depois cobra? 'O que a mão direita faz, a esquerda não precisa saber.' - do contrário, não é caridade e sim, vaidade! Não foi assim que aprendemos? Porém não raro, picuinhas acontecem. Por exemplo: Primeiro a "vitima" pede um favor com bastante drama. Então o "distribuidor de pena" atende sua súplica. A vitima não agradece e o distribuidor anuncia o que fez e exige reconhecimento do favor prestado. Daí o papel de coitado passa para o distribuidor, que de repente, tornou-se a vitima da situação!

Eu estou escrevendo esse texto pensando em situações, relatos e pessoas que já cruzaram meu caminho - e que (a maioria) eu já varri da minha vida, obviamente. Quando eu tinha 13 anos, fui fazer um trabalho de grupo na casa de uma amiga. Éramos seis meninas e queríamos mais era conversar e aproveitar a chance de nos encontrarmos no domingo, do que fazer o tal trabalho. Então a mãe da menina, que era uma professora rígida e pessoa muito correta, nos disse: "Onde vocês querem chegar com esse comportamento?" Nos deu um sermão e disse que aquele trabalho era prá ser feito em 30 minutos. Disse que nós estávamos perdendo nosso tempo e blábláblá.... Fiquei horrorizada. Coitada da minha amiga. Que mãe mais mal-humorada que ela tinha. O tempo passou, eu e ela crescemos pelo mundo de forma separada. Fizemos coisas certas e coisas erradas, como era de se esperar. Até que um dia essa amiga me ligou contando que estava namorando e apaixonada por um rapaz, mas descobriu que ele tinha uma namorada. Ficamos conversando até de madrugada e eu lhe disse: "por que você não conversa com sua mãe sobre esse assunto?" Ela ficou assustada com a minha sugestão, mas aceitou ter um diálogo com ela. "Mãe, eu perdi meus princípios envolvendo-me com um rapaz compromissado." E a mãe respondera: "Filha, se você perdeu os seus princípios, você perdeu o mais importante!" A partir daquele dia elas se aproximaram e foi a mãe dela que a ajudou a sair da fossa e reencontrar-se com seus princípios.

A experiência da minha amiga me ensinou muito na época. Aquela mãe severa e cheia de imposições tornou-se um exemplo para mim. Tratei de estabecer certos princípios na minha vida e tornei-me "menos legal" por isso. Entre eles, encontra-se um que relaciona-se a esse post: "Coitado é filho de rato que nasce pelado!" Quando percebo uma pessoa com problemas e sinto-me útil para ajudá-la, regozijo-me com tal atitude. Mas quando não é da minha alçada, simplesmente me afasto. Esse hábito me levou a algumas constatações:

1- Colhemos o que platamos. As vitimas normalmente não gostam da verdade. Preferem viver no mundo da fantasia e são péssimas para assumirem sua responsabilidade no cenário desafortunado que se encontram.
2- Nutrindo com veneno: Aquela pessoa que deseja continuar recebendo remédio para que os outros cuidem dela - como aquela senhora - e adora ouvir um "Oh coitada!", piora a cada dia.
3- Sentimento desprezível: Desejar que os outros sintam pena de ti - como aquela que vitimiza-se quando está longe do marido, ou tantas outras que sentem sede de pena - remete a uma vulgaridade sem limites.
4- Tempo de cada um: Todos temos o livre arbítrio e eu acredito que algumas pessoas se levantam mais rápido do que outras. Alguns não querem ser ajudados e apreciam a condição estagnada que se encontram. O fato de ter sempre um "distribuidor de pena" pelas redondezas - que nada ajuda, mas compactua com a situação passando a mão na cabeça do vitimado - só retarda seu restabelecimento. Alguns levam semanas para saírem do papel de vitima, outros anos. Cada um tem seu tempo e não acho prudente interromper esse processo individual.
5- Existem muitas formas de ajudar uma pessoa. Algumas vezes ficar de longe é o melhor que podemos fazer!

A descongruência da sociedade confusa que eu fui criada distorceu o papel da real vitima. Durante muito tempo eu fui incapaz de identificar o que era "consequência de escolhas mal-feitas" assim como, o que era o " prazer em se vitimar". Não que eu fosse ingênua, mas talvez desatenta a certos melindres. E eu tive dó. Dó de um, dó de outro. E dá-lhe "oh coitado!" por aí. Sem querer eu fui uma "distribuidora de pena", que não ajudava mas "compartilhava da dor". Quantas vezes deparei-me com uma situação esdrúxula e tive uma reação omissa? Compactuei com o erro, não disse o que devia, passei a mão na cabeça e mantive-me ligada a uma pessoa com a qual eu não simpatizava. E pra quê?

Hoje quando encontro uma pessoa de posicionamento rígido como a mãe da minha amiga, sinto imediata admiração. O mundo está cheio de "coitados" e "distribuidores de pena" e é preciso muita atenção para não cair nessa armadilha.

5 comentários:

Nadja disse...

ADOREI você ter compartilhado este texto! E acho muito relevante esse tipo de discussão por que muitas vezes, não somos coitados mas vez que outra agimos como um e precisamos erguer a cabeça e começar de novo. Eu detesto que me considerem digna de pena e detesto ter pena de mim mesma, cresci com muita gente assim.

Muitos beijos e sol paras você!

Celi disse...

Um boa reflexão gerou esse texto da Cíntia. Também adorei!
Beijos

Celi disse...

Ah, esqueci de falar que adorei seu comentário no meu post sobre incluir, segregar ou abortar. Muito bacana saber como as coisas acontecem por aí.
Um grande beijo.

Cíntia Anira disse...

Só agora vi que você postou. Sem querer esse texto rodou o FB. Alguns me confidenciaram: "eu queria dar um chacoalhão num amigo!" heheheheheh

Bj

Fernanda disse...

Achei excelente a reflexão, pra quem lê e pra gente mesmo.
Obrigada à Cíntia por escrever!!! tão bem! beijos.

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